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Educação brasileira I

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Cá estamos, em um país onde, em abril deste ano, foi constatado que a Secretaria do Estado da Educação distribuiu cartilhas de orientação para professores, contendo erros absurdos de História e Geografia. Foram 25 erros em cinco cartilhas de 5ª série fundamental até 1º do ensino médio, correspondentes ao 1ª bimestre de 2008.

As cartilhas, de uso obrigatório, registram que Cuba é um país de regime político capitalista. Em resposta à pergunta: “O Século XXI começou no ano 2001 e terminará em que ano?” – “3.000” era a resposta, quando o correto seria o ano de 2.100. Confusão de século com milênio. Pasmem! E o rio Xingu, um dos mais importantes do país, segundo a cartilha, corta o Estado de São Paulo, quando a informação real é que o rio em questão nasce na Serra Azul, em Mato Grosso, e corta a região sudoeste do Pará. A Secretaria de Educação do Estado, em resposta, informou terem sido erros pequenos e pontuais diante da dimensão do material elaborado.

Mas será admissível haver erros, ainda que pontuais, em materiais que foram criados com o objetivo de padronizar o ensino em sala de aula em todo um país?

Um material com gastos estimados em R$4,6 milhões poderia conter erros de ordem grave, sendo rodados sem uma inspeção rígida? Seria um mero detalhe a produção e distribuição de 1,6 milhões de cartilhas guia sem atenção a erros, de qualquer espécie?

E os erros não ficaram por aí, no caderno de geografia da 5ª série, foram corrigidas legendas de mapas que davam crédito para uma obra e, na verdade, pertencia a outra. Havia ainda um mapa mundi onde a Rússia constava apenas no continente asiático, sendo que na realidade, possui uma porção européia.

Com o objetivo de formular uma base curricular comum para professores e alunos e melhorar os resultados do SARESP – Sistema de Avaliação e Rendimento do Estado de São Paulo (http://saresp.edunet.sp.gov.br), com programação para lançamento de uma edição por bimestre [4 para cada disciplina], poderiam se dar ao luxo de um material não editado criteriosa e corretamente?

E como nos calar, diante dessas e de outras falhas técnicas, e não tão relevantes proporcionalmente, porém não menos divulgadas e comentadas, como o erro de português na palavra encino, constante em apenas uma das páginas dos livros dos professores de inglês da 8.ª série. Considerado pela Secretaria da Educação como um problema de digitação já que, em 76 tipos de apostilas, estão grafadas mais de 350 vezes a palavra ensino de forma certa.

Mas ora que justificativa! E porque não escrito certo em TODAS ás vezes? Não há revisão final do material?

Só uma falhazinha de digitação em Português, apenas errinhos pontuais em História e Geografia.

Tão pequenos perto de um ensino em teorias caminhando para um primeiro mundo e na prática tão perdido, desgovernado pelo governo que insiste em dizer priorizá-lo. Mas é com pequenas atenções que são dadas, desde a produção e elaboração de um material até sua utilização em sala de aula, é que percebemos o tamanho da preocupação com a educação, o quesito básico depois da saúde para formar um país. “Ordem e Progresso”. Sem ordem não há progresso. De nada adianta “Desordem no Congresso”.

A educação caminha de mal a pior não só da base para o vértice, com alunos que desrespeitam professores e não tem interesse, mas também e principalmente, do vértice para a base, de onde deveriam vir as melhores referências, não só em grafias e/ou informações certas ou erradas, mas referências de comportamentos.

O grau de importância que se dá à elaboração e edição de materiais destinados ao aprendizado torna menos importante quem já não se sente importante, lidando com suas piores frustrações ao perceber que de fato ninguém se importa.

Estarão tratando com respeito e devida consideração uma juventude que comandará o país em um futuro não tão distante? Estarão entendendo que a massa trabalhadora de amanhã só poderá ser melhor se investida nela hoje? E quem pensa que seus filhos, em colégios particulares, não enfrentarão as conseqüências dessa “deseducação” atual está enganado. Quem trabalhará para eles? Com que espécies de limitações absurdas terão de conviver em plena sociedade pós-moderna, em que o resolver das coisas parece ser suscetível a um toque na tela?

“Fugir” com nossos filhos para escolas particulares resolve ou mascara um problema tão latente?

Em um país onde o descrédito vem das duas partes, de quem comanda e de quem é comandado. De quem letra e de quem é letrado. Ninguém acredita em ninguém.

Ainda há esperanças de mudar os rumos da educação brasileira?

Fica a pergunta. Que não cala.

Campos do Jordão, editado em 12 de Julho de 2008.

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Written by Doce vida

julho 13, 2008 at 5:25 pm

Publicado em Educação

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